domingo, 19 de julho de 2009

Alegria para esta casa

Agora já vai longe. Um vulto sem cor distorcido pela minha vista embaçada. Naquele dia acordou com uma Certeza criancinha lhe puxando o lençol. Era uma Certezinha miúda e determinada. Buscava confronto e, sempre que os olhares se cruzavam era vitória certa da criaturinha que faiscava convicção. Ela não conhecia o medo ou a dúvida. Nunca dera um passo em falso. E a pequena Certeza cresceu vertiginosamente ao longo do dia. Deixou de segurar a barra do vestido da moça e, por volta das cinco da tarde, a Certeza já era imensa. Tornara-se aconchegante, protetora e frondosa. Uma Certeza absoluta. Dessas que nem os filósofos mais cheios de perguntas ousariam enfrentar. Era grave, silenciosa e latente. A Certeza ajudou-a a arrumar tudo. Fez as malas. Separou as lembranças, decidiu não levar muitas destas, eram pesadas demais. Escolheu duas. Envolveu-as em suas roupas mais finas. Eram lembranças quebradiças e difíceis de pôr em uma mala de mão. Mas a Certeza deu um jeitinho e ainda arrumou espaço para três pequenos suspiros que ela não queria deixar. Depois de tudo pronto demorou quarenta minutos escolhendo o vestido e trançando os cabelos. Quando ela buscou apoio em si mesma, diante do espelho, viu uma mulher encantadoramente perdida e acreditou que não precisaria mais puxar grilhões nem esperar . E assim o fez. Saiu com um vestido amarelo e casou-se com o sol daquela terra quente. Deixou quase tudo que pesava: uma esperança enorme, natimorta; um lindo par de sapatos que lhe machucava os pés e uma infinidade de pequenos anseios de chumbo. Estes últimos eram impossíveis de levantar do chão. Não sei aonde ela vai. Nem como serão seus dias do lado de fora desse portão. Sei que por dois quarteirões era a Certeza quem guiava a moça. Daí até desaparecerem misturadas nas cores do poente era a moça que guiava a Certeza.

Vocês trazem alegria para esta casa.

7 comentários:

Donana disse...

Meu deus .... é tão bonito que ... fico sem respirar, e sem frase ... porque dá medo de quebrar, de arranhar, de chegar perto e falar besteira e ficar menos bonito. Uma preciosidade, você, Aline! Beijo de quem sempre volta e nunca se arrepende.

rosammagalhaes disse...

Como sempre, um lindo texto! Creio que essa tal Certeza chegou na hora certinha na vida da moça. Conheço outra moça que costuma colocar as coisas queridas em prateleiras imaginárias, e as inutilidades... num baú sem chave!

Obrigada por me linkar, fiz isso com você também! Beijo de passarim.

D disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
D disse...

passei por aqui e me encantei com suas palavras...

Denise disse...

Acho q ando sensivel demais ou vc mocinha anda deveras INTENSA.

beijos com lagrimas nos olhos

De

john disse...

Brilhante, sua expressão de conceitos, estou realmente impressionado como vc deu vida e forma aos conceitos da "certeza", das "lembranças", e dos "grilhões" que nos prendem à mesmice cotidiana.
Viva ao hermeticismo!
E viva à sua habilidade com a escrita!
abraços

Laís Romero disse...

Mistério que se desenvolveu em tantos textos que diziam o mesmo. Chegou ao ponto certo, logo agora que já vai longe. ^^